sábado, 6 de dezembro de 2008

Relato de um sobrevivente de uma grande enchente...

Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto:

COMEÇAR DE NOVO

Eu tinha medo da escuridão, Até que as noites se fizeram longas e sem luz

Eu não resistia ao frio facilmente, Até passar a noite molhado numa laje

Eu tinha medo dos mortos, Até ter que dormir num cemitério

Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires, Até que me deram abrigo e alimento

Eu tinha aversão a Judeus, Até darem remédios aos meus filhos

Eu adorava exibir a minha nova jaqueta, Até dar ela a um garoto com hipotermia

Eu escolhia cuidadosamente a minha comida, Até que tive fome

Eu desconfiava da pele escura, Até que um braço forte me tirou da água

Eu achava que tinha visto muita coisa, Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas

Eu não gostava do cachorro do meu vizinho, Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar

Eu não lembrava os idosos, Até participar dos resgates

Eu não sabia cozinhar, Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome

Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras, Até ver todas cobertas pelas águas

Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome, Até a gente se tornar todos seres anônimos

Eu não ouvia rádio, Até ser ela que manteve a minha energia

Eu criticava a bagunça dos estudantes, Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias

Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos, Agora nem tanto

Eu vivia numa comunidade com uma classe política, Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora

Eu não lembrava o nome de todos os estados, Agora guardo cada um no coração

Eu não tinha boa memória, Talvez por isso eu não lembre de todo mundo

Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos

Eu não te conhecia, Agora você é meu irmão

Tínhamos um rio, Agora somos parte dele

É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio

Graças a Deus

Vamos começar de novo.

Anônimo

1 comentários:

Claudinha disse...

Aprendemos através dos nossos medos a nos renovar e tentarmos ser melhores...
Assim como precisamos conhecer o que não amamos, excluindo nosso pré-julgamento.

Um bela reflexão, uma lição de vida;

Abs;

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